"Glow On" do Turnstille sobre um ponto de vista que talvez você não tenha percebido
- William França
- 9 de out. de 2022
- 8 min de leitura
Atualizado: 12 de out. de 2022
Turnstille é umas daquelas bandas que tem tudo pra se tornar lendária. O grupo possui um histórico de boas canções, álbuns consistentes e riffs marcantes. E na opinião deste que vos escreve, juntamente com o Ghost é a maior e mais impactante banda da atualidade. Acontece é que se você não vive em uma bolha sertanejo/forrozeira já deve saber que os caras lançaram um dos discos mais aclamados do ano passado, o poderoso e (por que não?) já clássico "Glow On". O álbum manteve a qualidade dos seus anteriores ("Nonstop Feeling" e "Time & Space"), mas com uma pitada de experimentalismo e Indie Rock a mais. Ok, disso tudo você já deve saber, mas o que você não sabe é que possivelmente a banda de hardcore mais famosa da atualidade nos trouxe um álbum , pois é. Nem eu mesmo sabia, quem me contou foi meu amigo Matheus Gomes, que aparece pela primeira vez (e eu espero que seja a primeira de muitas) por aqui. Disto isso, fiquem com o texto do cara. Eu gostei e espero que você também :).

*********************************************************************************************************
Por: Matheus Gomes de Andrade
Insegurança/desconexão/reflexão/reconexão. Essas são palavras chave que podem definir o álbum “Glow On” do Turnstile. Lançado em 2021, durante a pandemia de Covid-19, o trabalho da banda pode ser interpretado como um álbum conceitual, tratando principalmente sobre o tema de autoconhecimento.
“Glow On” pode ser dividido em 4 partes:
Insegurança
Músicas: Mystery, Blackout, Don’t Play, Underwater Boi
01. Mystery
“And I believe in holding on to life
E eu acredito em segurar a vida
But I'm afraid to
Mas eu tenho medo”
A música inicial nos traz o tema da insegurança e ansiedade, o medo da incerteza que o futuro carrega.
“I know you're scared of running out of time
Eu sei que você está com medo de ficar sem tempo”
02. Blackout
“You know it won't be long until the end
Você sabe que não vai demorar muito até o fim
Let the spotlight shine on me again
Deixe os holofotes brilharem em mim novamente”
Carpe diem é o sentimento da segunda faixa. Apesar das inseguranças e incertezas, temos que aproveitar nosso tempo em vida, da forma como acharmos melhor e mesmo que para as outras pessoas não pareça agradável.
“And if it makes you feel alive
E se isso faz você se sentir vivo
Well then I'm happy I provide
Bem, então estou feliz por fornecer
And when you see me on the floor
E quando você me vê no chão
It's just a part of my show
É apenas uma parte do meu show”
03. Don’t Play
“You got me paralyzed, you got me stunned
Você me deixou paralisado, você me deixou atordoado
Words like bombs, I'm going numb
Palavras como bombas, estou ficando dormente
Giving more than I can take
Dando mais do que posso tomar
But don't you take my thrill Away
Mas não tire minha emoção”
Em Don´t Play temos a sensação de fechamento dos próprios sentimentos e proteção contra o que vem do mundo externo. Uma visão de mundo fechado, isolamento e desconexão proposital.
“Disconnect from everything I think I know
Desconectado de tudo que eu acho que conheço
Release my mind, my garden grows
Solte minha mente, meu jardim cresce
Found a place where I can stay
Encontrei um lugar onde eu possa ficar
Now don't you take my thrill Away
Agora não tire minha emoção”
04. Underwater Boi
“When I get to heaven will I know?
Quando eu chegar ao céu eu vou saber?
Boi has got a long way to go
Garoto tem um longo caminho a percorrer
Swimming thru the seasons of cold
Nadando através das estações de frio
Living with a pain he don't know
Vivendo com uma dor que ele não conhece”
No fim do primeiro arco do álbum, temos ainda o traço da insegurança. “Quando eu chegar ao céu eu vou saber?” apesar de todos os problemas que passamos só reconheceremos a felicidade quando realmente pudermos senti-la. Sonhos e idealizações são ilusões, que são potencializadas com o isolamento e incerteza.
“Ride alone beside me
Ande sozinho ao meu lado
Here but gone tomorrow
Aqui, mas se vai amanhã
No goodbyes. I'm always here but gone...
Sem despedidas. Estou sempre aqui, mas partirei...”
Nesse trecho temos a introdução da ideia principal da segunda parte do álbum, a desconexão do eu lírico.
Desconexão
Músicas: Holiday, Humanoid/Shake It Up, Endless
05. Holiday
“Close enough to feel and now it's time to disappear
Perto o suficiente para sentir e agora é hora de desaparecer
I wanna celebrate
Eu quero comemorar
So I can never feel the cold
Então eu nunca sentirei o frio”
Fluidez e desconexão. Sentimentos bastante comuns para quem tem medo de se relacionar, não sentiremos dor se não houver sentimentos fortes, conexão. A faixa também faz uma analogia com feriados (Holiday), dias em que não temos obrigações ou responsabilidades. Sem comprometimento, nada sério.
“Por que se importar? Vai me machucar”
-Weezer, “Why Bother?”, Pinkerton, 1996
“And I can sail with no Direction
E eu posso navegar sem direção”
Podemos seguir pela vida sem necessariamente ficar parado em algum lugar, ou simplesmente, deixar a vida nos levar (Nesse caso o mar).
06. Humanoid/Shake It Up
“Ain't nobody getting in (Locked down)
Ninguém está entrando (trancado)
Ain't nobody getting out (Locked down)
Ninguém está saindo (trancado)
Ain't no other way around (Locked down)
Não há outro jeito (trancado)
Now you're in a lockdown (Locked down)
Agora você está em um lockdown (trancado)”
Além de uma óbvia referência a pandemia de Covid-19, essa música também pode ser interpretada como uma forma isolamento pessoal e distanciamento de outras pessoas. (não sei se fui claro)
07. Endless
“Following a feeling in my heart
Seguindo um sentimento em meu coração
Even if it all just falls apart
Mesmo que tudo desmorone
When I hit a wall I got to:
Quando bater em uma parede, eu tenho que:
Break in
Quebrar”
É muito comum, quando jovens, acreditarmos que estamos certos e que o mundo inteiro está errado, possuímos uma visão de mundo fechada devido aos medos e inseguranças internas.
Adquirimos essa postura de “durão” como forma de defesa e nos negamos a admitir que podemos estar errados, e no meio desse processo podemos até a magoar pessoas próximas. “Mesmo que tudo desmorone”.
Reflexão
Músicas: Fly Again, Alien Love Call, Wild Wrld, Dance-Off, New Heart Design
08. Fly Again
“Do you really wanna fly again?
Você realmente quer voar de novo?
Will you ever get that high again?
Você quer ficar tão alto de novo?
Didn't I give a damn good try, oh didn't I?
Eu dei uma boa tentativa, não dei?
Didn't I build a world with my design?
Não construí um mundo com o meu design?”
Na terceira parte do álbum, temos trechos que aparentam ser diálogos. Falas do eu lírico consigo mesmo ou com um outro “eu” interno. Nesse início vemos uma reflexão e arrependimento sobre a maneira como o personagem, “eu” (ou nós mesmos), agiu em momentos anteriores. Sobre o mundo egoísta que construímos e o próprio isolamento dele. Um refúgio.
“Still can't fill the hole you left behind
Ainda não pode preencher o buraco que você deixou para trás”
Arrependimentos não são o suficiente. Mudança é necessária. A frase acima pode ser uma referência a música anterior.
09. Alien Love Call
“Light inside of me
Luz dentro de mim
Hard enough to see
Difícil o suficiente para ver
Locked inside my heart
Trancado dentro do meu coração
Floating in the dark
Flutuando no escuro”
Alien Love Call é provavelmente a música mais diferenciada em “Glow On”. E essa diferença casa com o tema tratado. Estranheza e solidão.
“Leve-me a bordo de sua bela nave
Mostre-me o mundo como eu adoraria vê-lo”
- Radiohead, “Subterranean Homesick Alien”, OK Computer, 1997
Os problemas enfrentados pelo personagem do álbum não podem mais ser escondidos. Emoções transbordam. Apesar de toda a dor que sentimos pela vida, não temos que senti-la particularmente. Conexão é necessária e natural.
10. Wild Wrld
“Oh you better hide, outside it's a mad scene
É melhor você se esconder, lá fora é uma cena louca
Stepping on each other with all eyes up on the big screen
Pisando um no outro com todos os olhos na tela grande
Running like we got somewhere to go
Correndo como se tivéssemos algum lugar para ir
Every high is followed with a low
Cada alta é seguida por uma baixa”
Aqui temos a primeira crítica externa do álbum. Algo como a alienação das grandes mídias. Um exagero do significado da palavra “conexão”, causado pelo mundo da internet. Pode ser interpretada como a mudança / virada de chave para o personagem principal em relação aos seus problemas internos / externos. A visão é aberta para o mundo de fora.
11. Dance-Off
“We came in thru the same door
Entramos pela mesma porta
I don't know what we came for
Eu não sei para que viemos
If we don't let our feelings show
Se não deixarmos nossos sentimentos aparecerem
Then it's easy come, easy go
Então é fácil vir, fácil ir
I guess we'll never know
Acho que nunca saberemos”
Aqui vemos mais um diálogo. De início temos a volta de temas tratados anteriormente: insegurança, isolamento e medo dos sentimentos. Em seguida temos a despedida do “velho eu” para o “novo eu”:
“And so it's goodbye
Então adeus
It was a good time
Foi um tempo bom
The world is changing
O mundo está mudando
Or is it me who's not the same?
Ou sou eu que não sou o mesmo?
...
You're going your way, I'm going mine
Você segue o seu caminho, eu sigo o meu”
12. New Heart Design
“Do I really have a say?
Eu realmente tenho uma palavra a dizer?
Change is guaranteed to roll in like waves
A mudança é garantida para vir como ondas
Running all around to redefine and re-begin
Correndo ao redor para redefinir e recomeçar
Praying for a chance to lock in
Orando por uma chance de se trancar”
Na última faixa da terceira parte, New Heart Design (Novo Design do Coração), mais uma visão em retrocesso dos temas tratados até agora. Temos também revelação de um protagonista jovem (18 anos) e a afirmação de que o medo do futuro e inseguranças são as visões de quem ainda não encontrou o próprio caminho para seguir.
“When my eyes get blurred I'm losing my design
Quando meus olhos ficam embaçados, estou perdendo meu design
In a crowd, I'm lonely all the time
Na multidão, estou sozinho o tempo todo
...
18 years and ain't it funny how it feels
18 anos e não é engraçado como se sente
When you start to find out: life's real
Quando você começa a descobrir: a vida é real”
Reconexão
Músicas: T. L. C. (Turnstile Love Connection), No Surprises, Lonely Dezires
13. T. L. C. (Turnstile Love Connection)
“I want to touch
Eu quero tocar
A level up
Um nível acima
Want more connection
Quero mais conexão
And that's enough
E isso é o suficiente
...
I want to trust
Eu quero confiar
Less loneliness
Menos solidão
A little charm
Um pouco de charme
A constant rush
Uma corrida constante”
Na parte final do álbum, o personagem entende e aceita a necessidade de conexão pessoal e interpessoal. Curiosidade, a sigla T. L. C. também é uma expressão em inglês, “Tender Loving Care” (pode ser traduzida como “amor e carinho”).
“I want to thank you for letting me see myself
Eu quero te agradecer por me deixar me ver
I want to thank you for letting me be myself
Eu quero te agradecer por me deixar ser eu mesmo”
Nesse trecho há outro diálogo com o “velho eu”, retratando o autoconhecimento.
14. No Surprises
“You really gotta see it live to get it
Você realmente tem que vê-lo ao vivo para entender
...
You never feel it til you die from it
Você nunca vai sentir até morrer disso”
Na penúltima faixa, existe uma fala mais direta com o ouvinte. Ouvimos muitas músicas diariamente, seja no fone, no carro, andando em alguma rua ou no ônibus. Mas quantas vezes nos conectamos com aquilo que está sendo cantado ou tocado? Quantas vezes ouvimos uma música do início ao fim sem tentar entender ou sentir a profundidade dela?
É a reflexão que essa música traz a respeito de “Glow On”, ela nos diz que talvez a gente não entenda sobre o que está sendo cantado até que possamos sentir de verdade o que foi falado.
15. Lonely Dezires
“It's these things/dreams that I live for:
São essas coisas/sonhos pelas quais eu vivo:
My lonely dezires
Meus prazeres solitários”
A faixa final fala sobre aceitação. Qualidades e defeitos, gostar e desgostar, sentir e não sentir, são pequenos fatores que nos definem. Podemos esconder nossos defeitos das pessoas ao redor, mas eles sempre estarão presentes. Talvez, o que podemos fazer de melhor é reconhecer, aceitar e tentar mudar aquilo que nos faz mal.
Aceitar e ser quem você é o que nos faz brilhar (Glow On).

.png)




Comentários